Racismo estrutural e o impacto da Covid-19

Coronavírus escancara realidade escravista de diaristas e domésticas

Filhos de empregadas criam campanha para patrões darem dispensa remunerada às suas mães: ‘Vai além do vínculo empregatício, é o bom senso’

Para um país estruturalmente racista e mal acostumado a um contexto historicamente escravocrata, perder temporariamente o privilégio de ter uma empregada doméstica à disposição para limpar o apartamento de 500 m² causou estranheza em muitos patrões por aí. “Você lava sempre as mãos durante o trabalho, não vai pegar nada”, “Muda só o horário de vir para não tomar ônibus cheio”, “Vem de luvas e máscaras, que não contrairá o vírus”.

Frases parecidas com essas estão sendo ouvidas por diaristas e empregadas domésticas em todo o Brasil. É o que mostra uma campanha criada pelo coletivo “Pela Vida de Nossas Mães”, que lançou um abaixo-assinado, na plataforma Change.org, para reivindicar que essas mulheres tenham dispensa remunerada e, assim, possam atender às medidas de quarentena e precaução estipuladas pelas autoridades, protegendo-se a si e às suas famílias.  

Na página da carta-manifesto, que já recebeu o apoio de 64 mil pessoas em apenas três semanas, os integrantes do coletivo apresentam depoimentos de filhas e filhos de empregadas que desnudam como nunca o caráter escravagista que impera em muitas relações entre domésticas e patrões pelo país. O objetivo da causa? Apenas fazer com que suas mães também tenham o direito de se manterem seguras sem passar por necessidades financeiras. 

“Minha mãe trabalha como empregada doméstica, babá, diarista desde os 14 anos. Nesse surto de coronavírus aqui no país, nenhum empregado disse que pagaria para ela”, conta Bruna Fabrícia da Silva em relato postado na rede social do coletivo. “Ela é diarista hoje em dia, trabalha em quatro casas pela semana. A diária da minha mãe é 80 reais, mas mesmo assim eles não pagam para ela se resguardar”, completa a moradora de João Pessoa (PB).  

Essa realidade e de outras trabalhadoras que foram simplesmente dispensadas sem qualquer amparo, levou o coletivo a iniciar um mapeamento das mulheres que estão enfrentando situações do tipo e precisam de apoio financeiro para pagar as contas de casa, bem como de colaboradores que desejam ajudá-las. O movimento #ApadrinheUmaDoméstica já recebeu formulários de pelo menos 53 empregadas e cerca de 15 “padrinhos”.  

“A quarentena, o isolamento social, que é recomendado pela OMS [Organização Mundial da Saúde], não é um privilégio, é um direito de se manter seguro e assegurar os seus coletivos familiares. E para que isso aconteça, os empregadores e empregadoras precisam entender que a quarentena remunerada vai além do vínculo empregatício, é o bom senso”, fala a atriz Jessica Meireles em vídeo publicado no Instagram do “Pela Vida de Nossas Mães”.

Em seu relato, Jessica afirma que a quarentena remunerada é a “medida mínima” a ser oferecida a essas mulheres “que passam a vida inteira trabalhando e cuidando de outras famílias, para que neste momento elas possam se assegurar e assegurar o seu coletivo”. Ao final, a jovem pede: “Se você tem uma empregada doméstica, faça a dispensa remunerada”. 

Racismo estrutural, contexto escravocrata

A pandemia do novo coronavírus ainda não chegou ao pico no país, mas já trouxe uma crise para a saúde e a economia. Outro efeito que a Covid-19 está provocando no Brasil é a exposição das muitas mazelas que assolam seu povo, especialmente os cidadãos mais vulneráveis. Moradores de rua, entregadores de delivery, caminhoneiros, trabalhadores autônomos e informais sentem-se encurralados entre morrer de fome ou de coronavírus.

No caso das empregadas domésticas e diaristas, a pandemia jogou ainda mais luz sobre um assunto que muitos fingem não ver: o racismo estrutural e o contexto escravocrata da sociedade brasileira. Juliana França, nascida e criada em Japeri, município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, é uma das integrantes do “Pela Vida de Nossas Mães” e, em depoimentos para o coletivo, contou sobre sua realidade como filha de empregada doméstica.   

O COLETIVO SE MOBILIZA POR MEIO DE UMA CARTA-MANIFESTO (FOTO: REDE SOCIAL PELA VIDA DE NOSSAS MÃES)

“A gente tem um histórico de quatro séculos de escravidão neste país, quase quatro séculos. Isso quer dizer que ainda hoje, 2020, a gente vive numa sociedade estruturalmente racista. Aí você vai me dizer: ‘Ah, mas eu não escravizei ninguém’. Mas você se beneficia dos privilégios herdados desse contexto escravocrata. Assim como os nossos corpos, pretos e periféricos, são acometidos diariamente por essa sociedade racista”, relata a jovem. 

Ainda sobre o contexto, Juliana observa que essa realidade também reflete um número maciço de mulheres pretas e periféricas que ocupam o cargo de empregadas domésticas no país. “A gente precisa entender qual é a nossa função nesse atual momento de pandemia da Covid-19. A gente só vai passar por isso coletivamente”, afirma a jovem no depoimento.  

De patrões que sugeriram a empregadas ficarem de quarentena no trabalho a outros que dizem não poder perdê-las na pandemia porque elas “são da família”, os inúmeros relatos de filhas e filhos de diaristas parecem tirados de cenas do filme “Que horas ela volta”, protagonizado por Regina Casé. A trama, assim com a vida real, mostra como a naturalização dos dos privilégios e desigualdades alimentam também uma cruel relação de subserviência. 

“Minha mãe tem 63 anos e ainda é diarista, mesmo aposentada, para ter uma graninha a mais. E por mais que eu converse com ela, ainda existe uma relação de subserviência de quem não teve outra oportunidade na vida”, narra Sueli Alves, que mora na capital paulista. 

E assim como o de Sueli, multiplicam-se os relatos de filhos e filhas dessas trabalhadoras lembrando como suas mães migraram de outros estados para trabalhar de domésticas nas grandes capitais, “desde os 12 anos limpando, cozinhando, criando filhos dos patrões, fugindo de homens que tentavam abusar dela”, ou indo “trabalhar doente para manter seus compromissos”, mesmo com o risco do coronavírus, para não ser demitida. 

Renda emergencial 

abaixo-assinado criado pelo movimento “Pela Vida de Nossas Mães” destaca que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a nação possui 6,3 milhões de profissionais que prestam serviços domésticos, como diaristas, jardineiros e caseiros. Do total, conforme apontado pelo coletivo, 2,3 milhões trabalham sem carteira assinada e 2,5 milhões são diaristas que estão desamparadas por leis trabalhistas e não possuem contratos legais. 

Depois de muita demora, o governo finalmente começou a pagar o auxílio emergencial de R$ 600 para trabalhadores autônomos, informais e microempreendedores individuais (MEI). O Senador também aprovou a inclusão de outras categorias de beneficiários, incluindo diaristas, taxistas, manicures, pescadores, entre outras. A medida pode trazer algum alívio a esses trabalhadores, mas não isenta empregadores do bom senso de suas responsabilidades.  

Na campanha, o coletivo apresenta algumas medidas que podem ser adotadas por patrões de empregadas domésticas, como a dispensa remunerada e o adiantamento das férias em sua totalidade ou de forma parcial. A petição foi incluída em um movimento de enfrentamento ao coronavírus, lançado pela Change.org, para dar mais visibilidade às campanhas relacionadas à pandemia. 


Texto publicado também na CartaCapital.